«Primeiramente, postulamos que, se as almas existem, então devem ter alguma massa. Se tiverem, então uma mol de almas também tem massa. Então, em que percentagem é que as almas estão a entrar e a sair do inferno? Eu acho que podemos assumir seguramente que uma vez que uma alma entra no inferno nunca mais sai. Por isso, não há almas a sair. Para as almas que entram no inferno, vamos dar uma olhadela às diferentes religiões que existem no mundo hoje em dia.Algumas dessas religiões pregam que, se não pertenceres a ela, então vais para o inferno. Como há mais de uma religião desse tipo e as pessoas não possuem duas religiões, podemos projectar que todas as pessoas e almas vão para o inferno. Com as taxas de natalidade e mortalidade da maneira que estão, podemos esperar um cresci-mento exponencial das almas no inferno.Agora vamos olhar para a taxa de mudança de volume no inferno. A Lei de Boyle diz que para a temperatura e a pressão no inferno serem constantes, a relação entre a massa das almas e o volume do Inferno também deve ser constante.Existem então duas opções:1) Se o inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura e a pressão no inferno vão aumentar até ele explodir.2) Se o inferno se estiver a expandir numa taxa maior do que a de entrada de almas, então a temperatura e a pressão irão baixar até que o inferno congele.Então, qual das duas opções é a correcta? Se nós aceitarmos o que me disse a Teresa, minha colega do primeiro ano: "Haverá uma noite fria no inferno antes de eu ir para a cama contigo" e levando em conta que ainda NÃO obtive sucesso na tentativa de fazer amor com ela, então a opção 2 não é verdadeira. Então verdadeira será a 1ª opção: O Inferno é exotérmico.»
O Inferno será Exotérmico?
Música do Urso
Professor militante
(…)
A contínua hostilização aos professores feita por este, e outros governos, vai acabar por levar cada vez mais pais a recorrer ao privado, mais caro e nem sempre tão bem equipado, mas com uma estabilidade garantida ao nível da conflitualidade laboral. O problema é que esta tendência neo-liberal escamoteada da privatização do bem público, leva a uma abdicação por parte do estado do seu papel moderador entre, precisamente, essa conflitualidade laboral latente, transversal à actividade humana, a desmotivação de uma classe fundamental na construção de princípios e valores, e a formação pura e dura, desafectada de interesses particulares, de gerações articuladas no equilíbrio entre o saber e o ter. O trabalho dos professores, desde há muito, vem sendo desacreditado pelas sucessivas tutelas, numa incompreensível espiral de má gestão que levará um dia a que os docentes sejam apenas administradores de horários e reprodutores de programas impostos cegamente.
(…)
O que eu gostaria de dizer é que o meu avô, pai do meu pai, era um modesto, mas, segundo rezam as estórias que cruzam gerações, muito bom professor e, sobretudo, um ser humano dotado de rara paciência e bonomia. Leccionava na província, nos anos 30 e 40, tarefa que não deveria ser fácil à altura: Salazar nunca considerou a educação uma prioridade e, muito menos, uma mais-valia, fora do eixo Estoril-Lisboa, pelo que, para pessoas como o meu avô, dar aulas deveria ser algo entre o místico e o militante. Pois nessa altura, em que os poucos alunos caminhavam uma, duas horas, descalços, chovesse ou nevasse, para assistir às aulas na vila mais próxima, em que o material escolar era uma lousa e uma pedaço de giz eternamente gasto, o meu avô retirava-se com toda a turma para o monte onde, entre o tojo e rosmaninho, lhes ensinava a posição dos astros, o movimento da terra, a forma variada das folhas, flores e árvores, a sagacidade da raposa ou a rapidez do lagarto. Tudo isto entrecortado por Camões, Eça e Aquilino. Hoje, chamaríamos a isto ‘aula de campo’. E se as houvesse ainda, não sei a que alínea na avaliação docente corresponderia esta inusitada actividade. O meu avô nunca foi avaliado como deveria. Senão deveria pertencer ao escalão 18 da função pública, o máximo, claro, como aquele senhor Armando Vara que se reformou da CGD e não consta que tivesse tido anos de ‘trabalho de campo’. E o problema é que esta falta de seriedade do estado-novo no reconhecimento daqueles que sustentaram Portugal, é uma história que se repete interminavelmente até que alguém ponha cobro nas urnas a tais abusos de autoridade. Perante José Sócrates somos todos um número: as polícias as multas que passam, os magistrados os processos que aviam, os professores as notas que dão e os alunos que passam. Os critérios de qualidade foram ultrapassados pelas estatísticas que interessa exibir em missas onde o primeiro-ministro debita e o poviléu absorve.
(…)
A força da diplomacia
"Na sua mensagem, por exemplo, Obama referiu-se à "República Islâmica do Irão", o que em muitos sectores dos EUA é considerado uma capitulação. Para os neoconservadores não existe tal coisa e há que ser inflexível nessa opinião, pois para eles inflexibilidade é força. Obama parte de outro pressuposto: respeitar o outro implica reconhecer-lhe o direito a denominar-se e isso não diminui em nada a nossa auto-confiança. Só quem se conhece bem a si mesmo se arrisca a falar a linguagem do outro."
Para Refletir
"Penso que as instituições bancáriassão mais perigosas para as nossas liberdadesque exércitos inteiros prontos para o combate.Se o povo americano permitir um diaque a banca privada controle a moeda,bancos e todas as instituiçõesque florirão em volta dos mesmos,privarão as pessoas de toda e qualquer posse,primeiro pela inflação,em seguida pela recessão,até ao dia em que os seus filhos acordem,sem casa e sem tecto,na terra conquistada pelos pais."
Colisão de Galáxias


Prenda
Nêsperas
QuotidianoUma nêsperaestava na camadeitadamuito caladaa vero que aconteciachegou o Velhoe disseolha uma nêsperae zás comeu-aé o que aconteceàs nêsperasque ficam deitadascaladasa esperaro que aconteceMário-Henrique Leiria - Novos Contos do Gin
Educação e Direitos Humanos
“Este conjunto de valores (…) só tem sentido na medida em que a pessoa recebeu uma educação, na medida em que, por conhecer as causas das coisas, como dizia Virgílio, pode levantar a sua voz em tribunal, exercer uma liberdade de pensamento com independência da mentalidade dominante, expressar opiniões dignas de serem ouvidas, ter voz activa e passiva nos assuntos públicos ou participar na vida cultural. Assim, a educação é a condição mais relevante para o exercício de numerosos direitos humanos.
Naturalmente, falar sobre educação neste contexto obriga a duas reflexões diferentes, pois se é preciso lembrar que tipo de educação se deve ministrar para promover no ser humano as capacidades cujo desenvolvimento protegerão os direitos humanos, do mesmo modo é necessário perguntar como vamos dar a conhecer os direitos humanos e como vamos colaborar para conseguir o seu respeito e efectividade. Estas questões são próprias da filosofia da educação (…) dedicarei três observações à segunda."
Siameses?
Que os partidos políticos padecem de muitos males, é um facto. Mas é também um lugar-comum. E um dos maiores males de que padecem é precisamente a repetição desse lugar comum, sobretudo quando é feita por quem se serviu deles e, depois, faz o discurso anti-partidos e se coloca acima deles.
Em entrevista à TSF, esta semana, ainda a propósito do lançamento da sua autobiografia política, Aníbal Cavaco Silva lembra que teve "alguma dificuldade" a habituar-se a algumas realidades na vida política partidária, confessa "um certo enfado e um certo enjoo por algumas lutas excessivas pela conquista de lugares" na junta de freguesia, na concelhia, etc. Tinha começado por afirmar: "Prefiro hoje ser apresentado não como político." E termina a dizer que se considera "um espírito muito acima da vida partidária".
Toda a entrevista é como que um exercício de demonstração de que o ex-primeiro-ministro, afinal, não é um político. Será como que um predestinado - "foi uma razão de destino, de mero acaso que eu caí na política", diz a dada altura -, que gostava era do "contacto com o cidadão mais simples, militante partidário, mas que não estava à espera de nenhuma recompensa", pois "era aí que encontrava algum conforto, não tanto entre os barões partidários". Cavaco continua a alimentar o mito do iluminado que chegou à Figueira da Foz e foi eleito líder do partido, como se isso fosse possível assim só.
O ex-primeiro-ministro vai ainda mais longe nas suas manifestações de desprezo pela política. Diz que, enquanto esteve no governo e na liderança do PSD, se orgulha de ter possibilitado "uma entrada por cima para algumas pessoas que não estavam dispostas à luta pela concelhia, pela secção", pessoas que "não precisavam da vida política". Ou seja, pessoas que não estavam dispostas a andar pelo país, em debates em caves às vezes esconsas, a ouvir queixas sobre os buracos na rua x, ou a falta de esgotos no lugar y, que não estavam dispostas ao jogo, muitas vezes cheio de esquemas, mas ainda assim democrático, de convencer os militantes e ser eleito para a secção, a concelhia ou a distrital.
Para além do desdém que manifesta pela coisa política em oposição à dedicação que diz ter pela causa pública, Cavaco Silva também dá sinais de como seria (será) o seu exercício do cargo presidencial.
Questionado sobre qual o principal mérito que vê em si para desempenhar o cargo de Presidente da República, recorda que tem "uma experiência grande em matéria governativa e no campo internacional". E acrescenta: "A forma de lidar com problemas de natureza económica, que hoje têm um grande peso, talvez seja também uma vantagem que eu tenho, não só pelo exercício do cargo, mas também pelos meus conhecimentos." O ex-primeiro-ministro sabe, certamente, que um Presidente não tem poderes em matéria económica.
Mas é preciso que o país e o PSD vão fazendo alguns exercícios e memória. Que se lembrem, entre outras coisas, que este mesmo homem que, agora, alimenta as esperanças de muitos sociais-democratas sobre uma candidatura presidencial, sobre a qual só se pronunciará daqui a um ano, é o mesmo que deixou o partido em suspenso sobre a sua recandidatura à liderança e que, quando finalmente anunciou a sua decisão, fez questão que o seu sucessor ficasse sujeito à sua - dele, Cavaco - moção de estratégia. É preciso que se lembrem do desprezo que sempre mostrou pelo Parlamento. É preciso que se lembrem da arrogância de quem ainda hoje diz que sempre teve "um discurso um pouco diferente dos outros políticos".
É preciso que se lembrem que espírito e fantasma são, muitas vezes, sinónimos.
Eunice Lourenço in Público de 10 de Abril de 2004
